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EUA e Israel atacam Irã e país revida: o que aconteceu até agora?

Fumaça em Teerã após ataque conjunto entre Estados Unidos e Irã – Getty Images

    Estados Unidos e Israel lançaram um ataque coordenado contra o Irã na manhã deste sábado (28/2). O presidente americano, Donald Trump, afirmou que “grandes operações de combate” estão em andamento, e a mídia estatal iraniana disse que seus líderes sofreram uma tentativa de assassinato, mas escaparam e passam bem. Segundo a Agência de Notícias da República Islâmica, 53 pessoas morreram após bombardeios terem atingido uma escola primária feminina no condado de Minab, na província de Hormozgan, no sul do Irã. Outras 48 pessoas teriam se ferido, afirmou o governador Mohammad Radmehr. A BBC não conseguiu verificar essa informação de forma independente, pois veículos de imprensa internacionais frequentemente têm seus vistos negados para o Irã, o que limita a capacidade de coletar informações sobre o que está acontecendo no país, que ainda enfrenta um bloqueio de internet. Segundo a agência de notícias iraniana Fars, explosões foram ouvidas em cinco cidades iranianas: Isfahan, Qom, Karaj, Kermanshah e na capital Teerã. O gabinete do líder supremo do Irã e o gabinete presidencial em Teerã também teriam sido atacados, mas, segundo o Irã, os governantes não foram atingidos. O Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã prometeu uma “resposta esmagadora”, afirmando que os ataques ocorreram “mais uma vez durante negociações” com Washington. Segundo as Forças de Defesa de Israel (IDF), ataques retaliatórios foram lançados contra o território israelense. Instalações da Marinha americana no Bahrein também foram atingidas por mísseis, e explosões foram registradas em Doha, no Catar. Os Emirados Árabes Unidos disseram que também foram atingidos pelo Irã e que os destroços, que caíram em uma área residencial em Abu Dhabi, teriam matado um civil de nacionalidade asiática cujo nome não foi divulgado.

    Legenda do vídeo: EUA e Israel iniciam ataque no Irã

    A Força Aérea dos Estados Unidos opera a partir de uma base em Al Dhafra, ao sul de Abu Dhabi, juntamente com a Força Aérea dos Emirados Árabes Unidos. Para o analista Jeremy Bowen, editor da BBC com ampla experiência na cobertura do Oriente Médio, Israel e Estados Unidos calcularam que o regime islâmico no Irã está vulnerável, lidando com uma grave crise econômica, as consequências da repressão brutal a manifestantes no início do ano e as defesas ainda enfraquecidas após os ataques sofridos em junho de 2025. Os presidentes americano e israelense concluíram que esta era uma oportunidade que

    Moradores de Teerã correm para se proteger durante ataque dos Estados Unidos e de Israel
    Legenda da foto: Moradores de Teerã correm para se proteger durante ataque dos Estados Unidos e de Israel

    Negociações frustradas

    A operação acontece após semanas de negociações entre Washington e Teerã na tentativa de fechar um acordo sobre o programa nuclear iraniano. O Irã “tentou reconstruir seu programa nuclear e continua desenvolvendo mísseis de longo alcance que agora podem ameaçar nossos bons amigos e aliados na Europa, nossas tropas estacionadas no exterior, e que em breve poderiam atingir o território americano”, afirmou Trump. O presidente americano disse ainda que os Estados Unidos vão reduzir a indústria de mísseis do Irã a pó e “aniquilar” sua Marinha. O presidente instou os iranianos a usarem o momento para derrubar o regime clerical do país. “Quando terminarmos, tomem o poder. Será de vocês. Esta será provavelmente a única chance que terão por gerações”, declarou. O mandatário também disse aos membros das forças de segurança iranianas que receberiam “imunidade” se depusessem as armas. Caso contrário, “enfrentariam morte certa”. O presidente israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que “um regime terrorista assassino” não deve possuir armas nucleares “que lhe permitam ameaçar toda a humanidade”. “Agradeço ao nosso grande amigo, o presidente Donald Trump, por sua liderança histórica”, acrescentou.Assista

    Legenda do vídeo,Carros queimados e prédios destruídos no Irã

    ‘Resposta esmagadora’

    O Ministério das Relações Exteriores do Irã afirmou que, embora o Irã estivesse ciente das “intenções” dos EUA e de Israel de realizar ataques, participou das negociações com Washington e que os ataques ocorreram “enquanto o Irã e os Estados Unidos estavam em meio a um processo diplomático”. A terceira rodada de negociações indiretas entre o Irã e os EUA foi realizada há dois dias, em 26 de fevereiro, em Genebra, sem avanços. O Irã e os EUA também realizaram cinco rodadas que não obtiveram resultado em maio de 2025. Uma sexta rodada, que era prevista para junho passado, acabou cancelada após Israel lançar ataques contra o Irã, desencadeando um conflito de 12 dias no qual os EUA atingiram três importantes instalações nucleares iranianas.

    Mapa mostra cidades que foram alvos de ataque dos Estados Unidos e de Israel

    Em nota, o Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã afirmou que o “inimigo” presumiu erroneamente que o povo iraniano “cederia às suas exigências mesquinhas por meio de ações tão covardes”. Também confirmou que as forças armadas iranianas já iniciaram medidas retaliatórias e prometeu “manter o povo informado continuamente”. O governo iraniano disse ainda que os ataques poderiam continuar em Teerã e outras cidades, instando os cidadãos a “manterem a calma” e se deslocarem para áreas mais seguras, sempre que possível, para evitar o perigo. Também afirmou que o governo “preparou todas as necessidades da sociedade com antecedência” e que “não há preocupação com o fornecimento de bens essenciais”, aconselhando as pessoas a evitarem centros comerciais. Escolas e universidades permanecerão fechadas, os bancos continuarão prestando serviços e os órgãos governamentais vão operar com 50% da capacidade, informou o Conselho. O Irã está agora sob um bloqueio de internet quase total, de acordo com a NetBlocks, uma agência de monitoramento da internet. Esta não é a primeira vez em que a internet do país é interrompida. No mês passado, os serviços de telecomunicação foram cortados durante protestos em todo o país, que foram brutalmente reprimidos pelo governo.

    Fumaça após ataques em Teerã
    Legenda da foto: Fumaça após ataques em Teerã

    Voos cancelados

    Todas as principais companhias aéreas desviaram ou cancelaram voos para a região, alegando questões de segurança e pedindo desculpas aos clientes. A Virgin Atlantic informou que cancelou o voo VS400 do aeroporto de Heathrow, o principal de Londres, para Dubai. Alertou ainda que os voos para as Maldivas, Índia e Arábia Saudita poderão ser mais longos devido à necessidade de redirecionamento. A British Airways cancelou voos para Tel Aviv e Bahrein até a próxima quarta-feira (4/3), e o voo deste sábado para Amã também foi cancelado. Com 200 passageiros, o voo BA123 de Heathrow para Doha, que decolou às 20h de sexta-feira (27/2), também recebeu ordem de retornar após ter feito um terço do percurso. A companhia Wizz Air confirmou a suspensão de todos os voos de e para Israel, Dubai, Abu Dhabi e Amã com efeito imediato até o próximo sábado (7/2). Os voos de e para a Arábia Saudita foram cancelados até terça-feira (3/3). A Emirates suspendeu temporariamente suas operações. Lufthansa, Air India e Turkish Airlines são outras companhias aéreas que anunciaram cancelamentos para a região.

    Legenda do vídeo,Vídeo gravado de carro em movimento mostra míssil atingindo o Bahrein, país que abriga instalações da Marinha dos Estados Unidos no Oriente Médio

    Como se encontra o programa nuclear do Irã?

    A situação do programa nuclear iraniano não é clara após o país ter visto suas instalações nucleares chaves serem atacadas durante a guerra de 12 dias entre Israel e Irã em junho do ano passado. Os EUA entraram brevemente no conflito, atacando três instalações — o maior complexo de pesquisa nuclear do Irã, em Isfahan, além de centros em Natanz e Fordo usados para enriquecer urânio para uso como combustível nuclear. Trump disse que as instalações haviam sido “destruídas”. Uma semana depois, o chefe da Agência Internacional de Energia Atômica, Rafael Grossi, disse que os ataques causaram danos graves, embora “não totais”, sugerindo que alguma forma de enriquecimento poderia ser retomada dentro de alguns meses. A agência estima que, quando Israel lançou ataques aéreos em 13 de junho, o Irã tinha um estoque de 440 quilos de urânio enriquecido a até 60% de pureza — um pequeno passo técnico para atingir os 90% necessários para armas nucleares. Grossi disse em outubro à agência de notícias Associated Press que essa quantidade — se enriquecida ainda mais — seria suficiente para produzir dez bombas nucleares. Em novembro, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou à revista The Economist que o enriquecimento de urânio tinha sido paralisado. No mês passado, ele causou controvérsia em outra entrevista, esta ao canal de notícias Fox News. “Sim, vocês destruíram as instalações, as máquinas, mas a tecnologia não pode ser bombardeada, e a determinação também não pode ser bombardeada.” Grossi disse à Reuters em janeiro que conseguiu inspecionar 13 instalações nucleares no Irã que não foram bombardeadas, mas não as três principais que haviam sido. Ele afirmou que já tinham se passado sete meses desde a última verificação do estoque de urânio enriquecido do Irã. Persistem incertezas sobre questões-chave, particularmente a localização e o estado do estoque, além da condição das instalações de enriquecimento.

    Ataque divide a opinião popular no Irã

    No Irã, a reação aos ataques foi diversa, com cenas de pânico em algumas áreas e alívio em outras diante da perspectiva da queda do regime, segundo relatos da BBC Persian. Por volta das 9h40, iranianos em várias cidades relataram ter ouvido fortes explosões. Vídeos que circulam nas redes sociais mostram pessoas correndo em pânico perto dos locais das explosões, com gritos e choro ao fundo. Mas, ao mesmo tempo, parece haver uma sensação de alívio, até mesmo de celebração, entre aqueles que acreditam que a queda do regime só pode ocorrer por meio de intervenção militar. Muitos já previam um possível ataque dos EUA. “Se eu morrer, não se esqueçam de que nós também existimos. Aqueles de nós que se opõem a qualquer ataque militar, aqueles de nós que se tornarão apenas um número nos relatórios de mortos”, escreveu um iraniano nas redes sociais. Outro escreveu: “Maldita seja a ditadura islâmica que causou esta guerra. Já sofremos três guerras.” Muitos iranianos que vivenciaram o que foi descrito como uma das repressões mais sangrentas contra civis na história moderna dizem agora acolher favoravelmente a mudança de regime, mesmo que ocorra por meio de intervenção militar e assassinato de seus líderes. Outros, contudo, temem que os ataques aéreos por si só não sejam suficientes para derrubar o regime. Receiam que ele possa sobreviver e, em resposta, tornar-se ainda mais brutal contra o seu próprio povo.

    Como o Brasil reagiu

    O governo brasileiro, por meio de uma nota do Itamaraty, condenou a ação coordenada dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, chamando atenção para o fato de os ataques terem acontecido “em meio a um processo de negociação entre as partes, que é o único caminho viável para a paz, posição tradicionalmente defendida pelo Brasil na região”. “O Brasil apela a todas as partes que respeitem o direito internacional e exerçam máxima contenção, de maneira a evitar a escalada de hostilidades e a assegurar a proteção de civis e da infraestrutura civil.” Segundo o Itamaraty, as embaixadas na região estão acompanhando as comunidades brasileiras na tentativa de atender às necessidades dos brasileiros e garantir a sua segurança.

    O que diz o resto do mundo

    Em uma declaração conjunta, os governos do Reino Unido, Alemanha e França condenaram os ataques de retaliação do Irã contra países vizinhos após a ação conjunta dos Estados Unidos e de Israel deste sábado (28/2). “A França, a Alemanha e o Reino Unido têm instado consistentemente o regime iraniano a encerrar seu programa nuclear, restringir seu programa de mísseis balísticos, abster-se de suas atividades desestabilizadoras na região e em nossos territórios, e cessar a violência e a repressão terríveis contra seu próprio povo”, diz a nota, assinada pelo primeiro-ministro britânico Keir Starmer, presidente francês Emmanuel Macron e o chanceler alemão Friedrich Merz. Os líderes afirmaram que seus países não participaram dos ataques, mas disseram estar em contato com os Estados Unidos, Israel e parceiros na região. “Reiteramos nosso compromisso com a estabilidade regional e com a proteção da vida civil”, disseram. “O Irã deve se abster de ataques militares indiscriminados. Instamos a liderança iraniana a buscar uma solução negociada. Em última análise, o povo iraniano deve ter a liberdade de determinar seu futuro.”

    Outros líderes também se pronunciaram:

    • A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, lembrou que o bloco europeu adotou “sanções abrangentes” em resposta ao “regime assassino” do Irã. “Apelamos a todas as partes para que exerçam a máxima contenção, protejam os civis e respeitem integralmente o direito internacional.”
    • O gabinete da primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, expressa solidariedade à população civil do Irã, afirmando que continua a exigir respeito pelos direitos civis e políticos. O gabinete acrescenta que Meloni consultará aliados e líderes regionais para apoiar os esforços para aliviar as tensões.
    • primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese, afirmou que seu país “está ao lado do corajoso povo do Irã em sua luta contra a opressão” e apoia os Estados Unidos nos esforços para impedir que o Irã obtenha uma arma nuclear.
    • Ministério das Relações Exteriores da Rússia descreveu as ações dos EUA e de Israel como “imprudentes”, afirmando que ambas violam o direito internacional. A Rússia apelou para o retorno a soluções políticas e diplomáticas.

    *Esta reportagem está em atualização

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