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Nicolás Maduro e Xi Jinping — Foto: Presidência da Venezuela/AFP
Muitos têm se indagado sobre a suposta passividade do governo chinês, que há anos é considerado um dos principais parceiros de Caracas no cenário internacional
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a Venezuela — com a realização de ataques neste sábado (3/1) e a captura do líder Nicolás Maduro — busca enviar um recado estratégico aos parceiros latino-americanos da China, em um momento que Washington vê o domínio do Hemisfério Ocidental como imperativo de sua própria segurança nacional. Essa é a avaliação do diplomata venezuelano Alfredo Toro Hardy que, em artigo recente, afirma que a disputa por trás da ofensiva americana contra Caracas é a competição com Pequim. Muitos têm se indagado sobre a suposta passividade do governo chinês, que há anos é considerado um dos principais parceiros de Caracas no cenário internacional. Mas por que a Venezuela? Em artigo recente, o diplomata dá a pista: em primeiro lugar, a dívida do país com Pequim supera US$ 60 bilhões (mais de R$ 300 bilhões, na cotação atual), quase metade do financiamento chinês para toda a América Latina. Significa que as maiores reservas de petróleo do mundo estão “hipotecadas” para a China nos próximos anos, algo que incomoda Washington. Além disso, o governo de Nicolás Maduro “comprou o pacote inteiro da China”, incluindo o alinhamento geopolítico total com Pequim — e não apenas o econômico, como fizeram outros países do continente Oficialmente, Pequim vinha criticando a pressão militar americana sem desviar do manual clássico da sua diplomacia: repúdio à intervenção, pedido de respeito à soberania, apelo ao multilateralismo. Em conversas reservadas, porém, percebe-se um cálculo de ganhos possíveis. Ao lado da preocupação com a indesejada instabilidade econômica da tensão militar, a ação americana é vista como mais uma etapa bem-vinda do desgaste à imagem internacional dos EUA. Como quem não quer nada, o governo chinês convidou a Pequim no ano passado representantes dos 33 países da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac). No início do ano, logo após a posse de Trump, os embaixadores do continente em Pequim foram convocados para um encontro com o vice-chanceler Miao Deyu, cuja mensagem diante das intimidações do presidente americano se resumiu num apelo: “Resistam”. Além de ataque à base da Força Aérea e forte militar em Caracas, outros três estados foram alvos das explosões, diz Venezuela. A truculência de Trump — de patadas em jornalistas (quase sempre mulheres) até as chantagens da guerra tarifária e a pressão naval sobre a Venezuela — acentua os contornos do retrato que a China promove dos EUA como a superpotência do bullying. Para Pequim, isso é particularmente útil no empenho para se consolidar como líder do Sul Global, onde a queda na cotação dos EUA pode render dividendos políticos. Caracas virou o marco zero ideal para a chamada “Doutrina Donroe”, a versão trumpista da Doutrina Monroe.



